DO CHORO AO DISCURSO

 O INÍCIO DA FALA:

 Do silêncio ao ruído

Na ausência do som bem definido, claro, bem articulado, ou até chegar nele, o bebê faz “barulho” que é uma espécie de “ruído” que vai ganhar outro status no ouvido de quem escuta: o de um chamado. Ou não.

O som que não é ouvido, um apelo que não tem poder de afetação, que não encontra um continente, um choro sem destinatário, um grito inaudível. O silêncio que incomoda.

 

A falta de atribuição significantes, de tradutores que se sintam convocados por aquele choro e lhe deem algum destino, podem produzir sujeitos que demorem ou, até mesmo, deixem de falar.

Há dois silêncios: um necessário e estruturante fazendo alternância com o som, criando uma trama. Um ritmo. Uma pulsação. Uma alternância entre ausência e presença. Movimento. Outro, seguido de tantos outros silêncios que, como em um “crochetar”, se pular várias casas sem fazer laço, dar pontos, forma um furo claro entre o que foi tecido antes e o que se teceu depois. O silêncio faz marca, um hiato.

 

 

Ao contrário de vazio, sem sentido, no silêncio existe a polissemia (os múltiplos sentidos). A abertura para qualquer signo: palavra, ação, sentido. Esse silêncio é necessário. É constitucional.

Em outras palavras, na presença de um interlocutor que não “dá brecha” para o bebê, falando ininterruptamente, a fala do bebê não tem espaço para nascer.

 

 

A alternância é imprescindível. Poder alternar entre o monólogo e o silêncio. Entre o choro, o balbucio, o silêncio num ritmo vital, o som sendo capturado como um apelo,  nesta medida há dois sujeito: o destinatário e o remetente.
Entre esses dois sujeitos há uma mensagem que deve ser decifrada. Que precisa de um emissor e de um receptor. Nessa triangulação fantástica entre emissor-receptor-mensagem, como num “jogo das cadeiras”, que dinamicamente alternam suas posições, acontece algo imensurável.

 

 

É no ballet simbólico que advém sujeitos. Falantes/ouvintes. Intérpretes/interpretados.
Nas díades entre compreensível/incompreensível, sentido/negado, escutado/ensurdecido, enxergado/invisível, afetado/anestesiado, dito/não dito/mal dito/interdito / interditado, que se que se compõem as histórias de vida individuais, familiares, transgeracionais, intergeracionais, fraternas, com ou sem laço de consanguinidade.

 

 

É na intersecção de todas essas combinações que se constitui um sujeito, desde a concepção da ideia de sua existência extra útero.

 

Do ruído ao som

 

O ruído ininteligível ganha status de som quando é compreendido por alguém, numa determinada língua, por identificações.

O som é embalado pela melodia da fala que capturam em si os afetos.

 

 

Sim! Os afetos se manifestam na fala, menos por seu conteúdo explícito e mais pelo modo como dizemos.

Caretas, piscadas, risadas involuntárias, reflexos corporais primitivos ganham estatuto de comunicação.

Expressões de todas as ordens ganham valor no ouvido de quem as escuta, nos olhos de quem os vê, de acordo com as vivências absolutamente particulares de cada sujeito.

 

 

O som, agora compreensível, deixa de ser produzido por “uma carne com olhos” (como diz Lacan) para ser de mini-ser-humano dotado de: desejos, volições, caprichos, descargas de energia, preferências, investido da condição de realizar acordos inconscientes.

O ruído ganha contornos pelo outro. Por aquele que o captura. É na rede semântica do ouvinte que o pequeno ser ruidoso é transformado em gente. Identificado como um igual da espécie.

 

 

E é pelos olhos dos outros que o pequeno ser passa a se ver. Ele escuta, desde onde ele é escutado. Vê-se, desde onde o outro vê. Vale destacar que este outro é alguém que ocupa uma função constitucional no crescimento e amadurecimento,  exercendo a função materna e a função paterna.

 

De Som em Palavra na Língua

 

Identificado som, na boca de quem o produz, é lançado à rede semântica de uma determinada língua, de um idioma.

Ao mesmo tempo esse som vai ganhando modulações, tonicidade, articulações.

Os lábios, as bochechas, a língua, os dentes, o ar, o céu da boca, a glote, as cordas vocais, o nariz, formam diferentes caixas de ressonância.

 

 

O encontro entre as diferentes combinações desses órgãos emitido por uma fonte de ar expiratório, causa diferentes vibrações no corpo de quem produz e no corpo de quem as recebe.

 

 

Essa vibração se deve a combinação ímpar: voz + corpo + língua (idioma), denotando a este gesto, num dado cenário, com um dado pano de fundo, um sentido que se monta neste acontecimento.

Os fonemas encadeados, envoltos por uma melodia (supra-segmento), num dado cenário tornam-se palavra.

 

 

Palavras inicialmente ditas não com a higienização fonética que se espera de um sujeito que já domina a língua (tanto órgão, como idioma), mas como um ensaio, porém no ouvido outro, ganha significado.

Muitas vezes, o cuidador responsável diz: “eu entendo tudo o que ele fala”.

 

 

Uma vez que a língua, na sua forma hegemônica não é produzida com a precisão articulatória, depende muito do que o seu intérprete privilegiado escuta, vê, lê, compreende dessas primitivas e preciosas enunciações.

 

 

Isso não é uma situação exclusiva às crianças em fase de aquisição de linguagem, mas de adultos, que por diversos motivos (Acidente Vascular Cerebral –AVC, afonias, quadros demenciais, histéricos…) perdem a “voz”. A fala. O poder de se fazer compreender minimamente. Esta é a natureza da comunicação humana: o encontro entre as subjetividades de quem enuncia e de quem escuta.

 

De Palavra à Texto

 

Não é matemática, do menor para o maior. Do fonema, palavra e então se produz um texto. Trata-se de uma constituição de via de mão dupla, tripla, quádrupla, polivalente.

A linguagem não é a somatória da língua, ela é a estrutura, a equação, o sistema que, junto com o psiquismo, cérebro e o corpo, formam a singularidade do sujeito.

Não é fácil mesmo entender.

Não é fácil explicar.

 

 

A linguagem é uma estrutura hipercomplexa.

Vamos pensar no jogo chamado “resta um” (de tabuleiro).

As peças todas postas no tabuleiro impedem a dinâmica que o jogo exige.

Para ter início ao jogo, devemos tirar uma peça. Sim. É condição para o início do jogo: a falta.

A ausência dessa peça promove uma falta fundamental, fundante e necessária para que o jogo tenha início. Assim como para nós, a presença/ausência do seio/leite/mãe/fome/saciedade, a formação e alternância desses binômios é estrutural.

 

 

Binômios são necessários para a formação dos sujeitos: ausência x presença, fome x saciedade, som x silêncio.

“Compreender tudo” não abre espaço para a formação dessa dupla, do binômio. “Compreender nada” tampouco.

 

 

O texto fica no intervalo entre a boca de quem produz, articulando como se pode os fonemas, sujeitos, verbos, predicados, preposições e os órgãos do sentido de quem as recebe (audição, olfato, tato, paladar, visão): entre dois corpos.

Um corpo íntegro em suas funções sensoriais e motoras não garante um bom falante. Assim como um corpo não-integro seja garantia de mau falante.

 

 

Vide histórias como a de Frida Kahlo (pintora que passou grande parte da vida convalescendo com grandes dificuldades motoras e pintava), Aleijadinho (escultor que não tinha braços, esculpindo com os pés),  Beethoven (compositor surdo), Einstein (que foi tido como uma criança bastante esquisita até quatro anos, por não falar até essa idade), Moisés (figura bíblica que se fazia entender apesar da intensa gagueira- esta sem causa orgânica descrita).

 

 

A língua traz consigo uma rede semântica que viabiliza a comunicação entre os sujeitos.

A linguagem é o veículo na qual a língua opera, tem como natureza a polissemia, os múltiplos sentidos. A falta de transparência nas comunicações, abre espaço para interdições, ditos, não-ditos, mal-ditos e mal-compreendidos.

 

 

Assim, para um único significante, palavra, há diversos significados.

A linguagem constrói sua trama entre: o corpo mensurável e sua subjetividade, as relações interpessoais (que também são dinâmicas e se reeditam ao longo da vida), transgeracionais e intergeracionais , além da  cultura contemporânea.

 

 

A boca é o órgão que abriga pelo menos três sistemas: digestivo, fonador e respiratório. Pela psicanálise, a boca é o órgão inaugural de relação com o outro/mundo, via amamentação e suas implicações na triangulação (peito, leite, boca). Na boca há a primeira inscrição do corpo erógeno. Assim podemos acrescentar à ela uma quarta função: a psíquica.

 

 

Por esta somatória de vieses, complexizando ainda mais o que já era obscuro por natureza em leituras individuais nas áreas, proponho um “zoom” ao mesmo tempo de aproximação e afastamento, que costumam ser trabalhadas isoladamente, cada qual em sua área da Fonoaudiologia e Psicanálise. Proponho integração.

FALAR está longe de ser exclusivamente um gesto motor. Por outro lado, é sabido que sem um aparato orgânico íntegro, as expressões motoras (verbais, gestuais, mímicas) tornam-se restritas, mesmo com um aparelho mental são.

 

 

Trabalho com intervalos, com encaixes, com as pontes que possibilitam a subjetividade ganhar corpo, voz, fala, expressão, escuta, para si e para o mundo.

Considero-me uma espécie de mediadora entre o mundo interno e o mundo externo do sujeito. Entre as manifestações do corpo orgânico e a subjetividade, entre conteúdos internos e externos, entre o desejo de dizer algo e a satisfação (ainda que provisória) de conseguir manifestar.

 

Desobstruindo, na medida do possível, o que impede e/ou dificulta essa comunicação. Dando vazão aos fluxos interditados. Construindo junto ao paciente e/ou o paciente e sua família (pensado caso a caso) possibilidades discursivas, fluxos, passagens, sons, corpo, contornos, articulações, representações. Transformando ruído em discurso.